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Relação e Comportamento: como nossas experiências moldam quem nos tornamos

  • Foto do escritor: Odaice Formagge
    Odaice Formagge
  • 22 de jul.
  • 5 min de leitura

Atualizado: 15 de ago.

O ser humano é o único primata que não consegue sobreviver sozinho. Por isso, as relações sempre fizeram parte da nossa história. Se olharmos para a evolução das espécies, veremos que, ao longo de milhões de anos, relacionar-se com membros da mesma espécie foi essencial para a sobrevivência, não apenas dos seres humanos, mas de praticamente todos os seres vivos. Rick Hanson, em seu livro Buda e o Cérebro, destaca que essa necessidade de conexão acompanha a vida desde as primitivas esponjas marinhas até a humanidade contemporânea.



Para Jacob Levy Moreno, criador do psicodrama, o ser humano é essencialmente um ser relacional. Não vivemos de forma isolada, mas inseridos em diferentes grupos ao longo da vida. É nas relações que nos desenvolvemos, aprendemos, construímos nossa identidade e encontramos possibilidades de crescimento. Mas é também nas relações que podemos vivenciar sofrimento, conflitos e adoecimento emocional.


Algumas pessoas podem questionar: “Mas e aqueles que vivem sozinhos, isolados do mundo?” A resposta é que, mesmo nesses casos, a relação continua existindo. O fato de alguém não sair de casa ou não manter uma vida social ativa não significa ausência de vínculos. Essa pessoa pode estar conectada a outras por meio de ambientes virtuais, jogos online ou redes sociais. E, mesmo quando não há uma relação direta com outras pessoas, existe sempre uma relação com algo: com objetos, atividades, ideias, memórias ou consigo mesma.


Costumo ilustrar essa ideia com o filme Náufrago, protagonizado por Tom Hanks. Após um acidente aéreo, seu personagem fica preso em uma ilha deserta, sem contato com outros seres humanos. Para suportar a solidão, ele cria um vínculo com Wilson, uma bola de vôlei que personaliza e transforma em um companheiro imaginário, alguém com quem conversa e compartilha seus pensamentos. De certa forma, foi essa relação que o ajudou a preservar sua saúde emocional e sua esperança de sobreviver.


Quando falamos sobre relacionamentos e comportamento humano, estamos falando, na verdade, sobre a maneira como nos constituímos ao longo da vida por meio dos encontros que vivemos. Cada interação deixa marcas, influencia nossa forma de pensar, sentir e agir, contribuindo para a construção de quem somos.


A psicologia nos ajuda a compreender esse processo, pois se dedica ao estudo do comportamento humano, das emoções, dos pensamentos e da forma como tudo isso se desenvolve na interação constante entre o indivíduo e o meio em que vive.


A espontaneidade da infância e o que acontece no caminho


Você já parou para observar o comportamento de uma criança?


Nos primeiros anos de vida, vemos um ser livre, espontâneo e muito curioso. A criança explora o mundo sem medo, sem vergonha, sem julgamentos. Ela tenta, erra, cai, levanta e continua. Ela não desiste!


Mas, com o tempo, algo muda.


Ao crescer, essa espontaneidade vai sendo, pouco a pouco, bloqueada. Surgem o medo, a vergonha, a insegurança. E isso não acontece por acaso.


Além dos fatores genéticos, o ambiente exerce uma forte influência na formação da personalidade. A necessidade de adaptação às normas sociais faz com que a criança escute, repetidamente, frases como: “isso é feio”, “isso não é certo”, “não faça assim”.


Dependendo da forma como essas experiências acontecem, elas poderão impactar profundamente a forma como essa pessoa passará a se enxergar e a se posicionar no mundo.


Crenças limitantes e o impacto na vida adulta


Ao longo desse processo, formamos o que chamamos de crenças limitantes - ideias sobre nós mesmos, sobre o outro e sobre o mundo que, muitas vezes, nos restringem. Essas crenças são aprendidas no nosso núcleo familiar, muitas passam de geração em geração. Outras aprendemos a partir das vivências experimentadas.


Essas crenças podem gerar insegurança, medo de errar e dificuldade em sair da zona de conforto. E, na vida adulta, isso pode se refletir em dificuldades nos relacionamentos, na vida profissional e na busca por sonhos e objetivos.


Sem perceber, passamos a viver de forma mais contida, menos espontânea, mais distante de quem realmente somos.


O apego e a importância dos vínculos


Um grande mestre que tive no psicodrama, Antônio Pontes, dizia que para a maioria das pessoas, a maior felicidade - ou infelicidade - está ligada ao encontro ou desencontro com aquilo que desejamos.


E por que isso acontece?


Porque somos naturalmente programados para estabelecermos laços afetivos com outros seres humanos. O apego faz parte da existência humana. Precisamos nos conectar com pessoas, com histórias, com lugares.


São esses vínculos que dão sentido à nossa vida.


Feridas emocionais e mecanismos de defesa


Mas, ao longo da vida, é praticamente impossível não vivenciarmos situações difíceis e até mesmo traumáticas. Afinal, quem nunca viveu algum conflito? Quem nunca viveu algum tipo de separação ou perda?


Conflitos, perdas, separações, frustrações, tudo isso faz parte da experiência humana.


Quando essas vivências acontecem, especialmente na infância, nosso organismo ativa o que a psicologia chama de mecanismos de defesa - formas do nosso psiquismo nos proteger da dor emocional.


Esses mecanismos são importantes, pois ajudam a aliviar o sofrimento naquele momento. No entanto, quando a dor não é elaborada, ela pode permanecer dentro de nós, como uma ferida aberta.


São emoções não expressas, experiências não processadas, feridas que não tiveram espaço para cicatrizar.


Quando o que pensamos, sentimos e fazemos não combina


Com o tempo, esses conteúdos internos que não foram elaborados podem gerar conflitos.


Passamos a viver contradições entre o que pensamos, o que sentimos e o que fazemos. E isso impacta diretamente nossos relacionamentos afetivos, familiares e profissionais.


Além disso, dificulta o autoconhecimento, podendo distorcer a percepção que temos de nós mesmos, pois perdemos clareza sobre quem somos, o que sentimos e o que realmente queremos.


É possível mudar? Caminhos para o autoconhecimento


Diante disso, é natural surgir a pergunta: como mudar essa realidade?


O processo de psicoterapia é um dos caminhos mais profundos para acessar essas questões, ressignificar experiências e desenvolver novas formas de se relacionar consigo e com o outro.


O primeiro passo é olhar para si.


  • Quais são seus desejos?

  • O que te impede de avançar?

  • Como você se enxerga hoje?


Na abordagem do psicodrama, buscamos recuperar algo essencial: a espontaneidade, que é definida por Moreno (1970) como a capacidade de dar respostas novas e adequadas a situações antigas ou repetitivas.


Portanto, é a espontaneidade que nos devolve a liberdade de agir com mais autenticidade, consciência e presença.


Talvez o seu maior desafio hoje não seja mudar o mundo ao seu redor, mas sim se reconectar com quem você realmente é, antes dos medos, das crenças e das limitações.


Lembre-se sempre que cuidar do seu mundo interno é, também, cuidar dos seus relacionamentos.


E esse pode ser o começo de uma nova forma de viver.


Odaice Formagge

CRP 06/48122

 
 
 

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